domingo, 24 de abril de 2016

Sobre espelhos e demônios.


Olho-me no espelho e não sou mais a mesma do dia anterior.
Mudei, embora continue a mesma.
Mudei, ainda que esteja sob a mesma pele.
Ainda sorrio o mesmo sorriso, embora agora possa fazê-lo com a sinceridade que o eu de ontem nunca me deixaria.
Finalmente, os olhos refletidos eram apenas isso — reflexos, e não olhares a me julgar. Olhares de um ser preso no espelho, alheio a mim mesma.
Pela primeira vez, via eu mesma. Não a vítima, uma coitada. Mas eu mesma, carne, osso, culpa.
Culpa pelos olhos somente agora serem meus. Meus e de ninguém mais. Culpa, porque pela primeira vez em anos, o olhar não me julgava. Era mero reflexo do que eu realmente sentia.
E meu carrasco, o olhar de ontem, desaparecera. Decidi que não mais me julgaria. Não mais me culparia. Não, não era uma vítima. Mas certamente, não era a única culpada.
Era apenas culpada por mim, por ter me destruído.
Aos poucos, lenta e impiedosamente.
Mas, ao mesmo tempo, não era eu. Algo em mim, não eu. Algo.
Fui fraca. Fraca por deixar que esse ser me possuísse, me derrubasse, me impedisse de levantar. Dominasse aquele olhar que me julgava com frieza toda a vez que me olhava no espelho.
Como um demônio, usando de meu corpo.
Usando-o para destruí-lo.
E eu me perguntava, onde vivem os demônios?
— Inferno.
Era a primeira resposta.
Agora questiono se tal lugar existe mesmo. Pois os demônios não vivem no inferno sob os nossos pés, tampouco escondidos nas sombras, entre nós.
Eles vivem em nós.
Meu demônio vivia naquele olhar. No que ele refletia.
Meu demônio vivia em mim mesma.


E o seu pior inimigo estava sempre lá quando apagavam as luzes, quando faziam silêncio. Seu pior inimigo era ela mesma.

— Francesco Procat, A Verdade Sobre Eles